
Vivem em mim a roçeira, a doméstica, a acadêmica, a prostituta, a guerreira, a mãe, a menina de cabelo sarara. Ah minhas negras memórias, minhas memórias negras... Esse blog renasce comigo nesse ano, desde a ultima vez que escrevi muitas coisas aconteceram, a doméstica virou doutora, a divorciada se casou, a estéril se tornou fértil e deu à luz quem hoje é a luz de seus dias... Ah minhas memórias negras, minhas negras memórias...
domingo, 10 de janeiro de 2010
domingo, 30 de agosto de 2009
Memória e Patrimônio, uma questão de Identidade: Histórias e estórias de Vila Boa de Goiás

Se me perguntassem há um tempo qual era o meu maior patrimônio? Sem dúvidas eu responderia minha filha, meu cachorro já que era o único bem material que tinha e ainda tenho menos. O cachorro não tenho mais.
Quando me especializei em gestão do patrimônio cultural percebi que o conceito de patrimônio vai além do meu mundo particular, e que sem perceber eu dividia esse patrimônio cultural com muitas outras pessoas, algumas que eu gostava outras não, acima de tudo aprendi que sou eu quem determina o que é patrimônio para mim, e que esse pertencimento nem sempre acontece por sentimentos bons, por muitas vezes selecionamos lembranças das quais queríamos esquecer. Isso chamamos de memória seletiva.
A discussão sobre patrimônio no Brasil é nova, surgiu no inicio do séc. 20 e vem se adequando a nossa realidade, devido à imensa colcha de retalho cultural que somos.
O patrimônio cultural brasileiro é imenso e muito diversificado. Mas como fazer com que as pessoas percebam a importância de se preservar esse patrimônio, se somos fruto de uma sociedade que busca o novo, o moderno, e que associa a memória a velhice e infelizmente a velhice a algo que não tem mas valor, algo que precisa ser substituído.
Foi Mario de Andrade que, na década de trinta, ao discursar sobre a riqueza cultural do Brasil, e do descaso com a qual tratavam o que ele chamou de monumento histórico, hoje também chamado por Bosi como lugares de memória, afirmou que: ”um Povo sem memória é um povo sem história”.
História: agora chegamos onde gostaria. Em 2004 me formei pela Universidade Estadual de Goiás em história e, mesmo sendo uma área onde trabalhamos memória, monumentos, diversidade, nunca, nem por uma vez, consegui perceber o meu papel e minha existência dentro desse processo, e quando estudamos história de Goiás foi pior.
Sempre morei em Goiás, cidade histórica de grande importância para compreensão do contexto social e cultural do Brasil, mas eu nunca havia me sentido parte desse cidade onde vivi a vida toda, até 3 anos atrás.
O fato de ter sempre vivido aos arredores da cidade fazia com que me senti-se fora do contexto, a minha relação com a cidade era de uma criança de nove anos que trabalhava de babá nas casas históricas do centro, essa memória seguiu comigo por muitos anos, e quanto mas eu estudava, mas me sentia excluída da minha cidade da minha história.
Hoje com 34 anos me formei no mestrado de Gestão do Patrimônio e fui convidada a ministrar um curso de formação para professores da minha cidade, fui convidada a despertar nesses professores o sentimento de pertencimento, sentimento esse que por muito tempo eu me neguei porque os mesmos me faziam lembrar momentos dos quais eu queria apagar da minha memória.
Este é meu quarto grupo de formação de multiplicadores patrimoniais e foi a experiência que mas temi e a mais gratificante até agora. Quanto á minha cidade habita em mim e como todas as minhas lembranças boas, ruins, não importa. Elas me lembram de onde vim, e acima de tudo quem eu sou..
Art. 216. Constituem o patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem: I - as formas de expressão; II - os modos de criar, fazer e viver; III - as criações científicas, artísticas e tecnológicas; IV - as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais; V - os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico.(Sant’Ana 1997, pag. 41)
“Memória e Patrimônio, uma questão de Identidade: Histórias e estórias de Vila Boa de Goiás”
Curso de qualificação para educadores, dias 27 e 28 de agosto 2009, na cidade de Goiás; promoção Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
Gestora responsável Prof. Msc: Rosinalda Corrêa da Silva
segunda-feira, 29 de junho de 2009
Mestre em Gestão do Patrimônio Cultural!
E muito difícil falar de si mesmo, para mim sobre tudo, mas o que posso dizer é que estou no rumo certo para o que quero para minha vida; e o que quero? Bom, na maioria das vezes eu não sei, quero crescer e sobre tudo que minha existência não seja em vão sobre tudo para os que me cercam. Então agora sou mestre em Gestão do Patrimônio Cultural, e nesse processo tive mais certeza de que o maior patrimônio de cada um é sua essência, sua verdadeira identidade. Sem ela nenhuma busca terá êxtase.
sábado, 31 de janeiro de 2009
Contando histórias na Itália...
Aqui abaixo um link ao mesmo video que, além do conto, tem uma introdução ao conto e á minha atividade de contação de histórias.
http://gallery.me.com/stefanosimoni#100095
quarta-feira, 18 de junho de 2008
Afoxé AYÓ DELÊ, a alegria da casa




A onde vai BABALOTÍN? Vou sair no afoxé...
Se me perguntarem onde eu me sinto mais negra poderia dizer que é em qualquer lugar, mais onde me sinto mais africana eu posso dizer sem sombras de dúvidas que é no cortejo do afoxé.
Desde de 2001 eu desfilo no bloco de afoxé Ayó Delê, um cortejo afro do qual eu sou destaque. Já desfilei em todas as alas do cortejo, e no dia 10 desse mês de junho o bloco foi de novo as ruas e eu com ele.
Esse bloco afro faz homenagem as Iabás africanas, em especial a Oxum, senhora dos rios, da beleza, da maternidade e do ouro.
Há sete anos o afoxé leva alegria aos becos da antiga capital Goiás, fazendo uma alusão a festa da rainha negra citada por alguns historiadores goianos como Sebastião Fleuri e Paulo Bertrão.
Segundo esses historiadores essa festa, datada do séc xviii, consistia em um cortejo onde uma escrava jovem e linda era escolhida para ser rainha. Em seguida ela era banhada nas águas do rio Vermelho, e vestida de dourado para lembrar as riquezas da mãe África. Nesse dia essa rainha era venerada e desfilava pela antiga Vila Boa, hoje Goiás.
Esse cortejo lembra os cortejos de etnia banto angolano. O afoxé nasceu do desejo de reviver esses momentos gloriosos dos quais nossos reis e rainhas africanos tanto quizeram preservar em terras goianas
Durante o cortejo a língua falada e cantada é Ioruba ou bantu, tudo como manda na tradição afro, mas a alegria que o cortejo traz a onde quer que passe é universal, vai além das letras do Ijexá e das cores das roupas.
A alegria está estampada no rosto de quem desfila e de quem assiste e acompanha mesmo que timidamente, sem entender porque os tambores os chamam.
terça-feira, 17 de junho de 2008
Maio mês dos sobreviventes

Sei que já estamos acabando Junho, mas senti a necessidade de escrever sobre Maio, sobre esse mês, em especial sobre um dia.
O 13 de Maio fui convidada a ministrar uma palestra na Universidade Estadual de Goiás de Goianesia, cidade que fica a 200 km de Goiânia.
Fiquei muito feliz pelo convite, sobre tudo por ser neste dia que divide opiniões no meio da militância negra.
No dia 13 de Maio de 1888 a princesa Isabel assinou a Lei Áurea que libertava os escravos do cativeiro. Chegava ao fim, depois de quase três séculos, a escravidão negra no Brasil.
Quando digo que essa data gera discursões no meio da militância falo do fato em que alguns grupos não aceitam esse dia como dia da liberdade, pois para eles o fato da princesa ter sido forçada a assinar essa lei, e também porque muitos negros preferiram as condições de escravos para não morrer de fome, faz do dia 13 não o dia do fim das senzalas mas do inicio de mais ciclos de martírio para os ex-escravos, jogados a própria sorte.
Nascia naquele momento uma nova classe, a dos mendigos, pedintes, servos que trabalhavam por um prato de comida. Então quando me perguntaram durante a palestra se eu, enquanto negra, mulher e educadora, acreditava que temos o que comemorar naquele dia 13 de Maio respondi, com toda certeza, temos sim.
Eu estou aqui em um espaço que antes era só dos brancos e que até hoje poucos negros conseguiram ganhar. O mundo acadêmico como todos os outros lugares em que se discutem opiniões hoje é lugar de negro, aliás como dizia Abdias do Nascimento: lugar de negro é em todo lugar. Muitos morreram para que eu e nos pudéssemos estar onde estamos.
Viva nossos reis africanos, viva Zumbi de Palmares, viva Nzinga Matamba.

quarta-feira, 7 de maio de 2008
de volta aos palcos : 1º Salão do Livro de Goiânia
No mês de Abril eu pude matar um pouco a saudade de estar com crianças, Participei como contadora de histórias do primeiro Salão do Livro de Goiânia, que aconteceu de 2 a 6 de Abril.
Mais uma vez me senti como uma principiante na frente de cento e vinte pessoas e pessoinhas de 3 a 50 anos. Contei uma história que adaptei de um mito africano coletado pelo antropologo Pierre Verger, “A dança de Oxúm”. Foi lindo demais ver e sentir todos aqueles olhares, e mais uma vez me vi criança-mulher no intuito de fazer ás pessoas sonharem junto comigo.
a história que brota da terra
Uma das etapas da pesquisa de campo do arqueólogo é a educação patrimonial, que tem o papel não só de levar á comunidade o resultado das pesquisas mas devolver á população local parte de sua história em forma de artefatos arqueologicos. Por isso a educação patrimonial é parte fundamental da pesquisa de campo, já que atraves dela a população que vive aos arredores dos sitios arqueologicos percebe a importância da conservação dos mesmos para gerações futuras enquanto identidade local.


quarta-feira, 5 de março de 2008
EU, EU, e EU mesma
Nestes meses não tinham conseguido escrever nada no blog então primeiro peço desculpas pela demora. Mais dedicarei maior atenção a ele, e as pessoas que por ele passaram.
No momento estou meio orfã pois estou sem sala de aula, e amo dar aulas, estou com um trabalho de assesoria no IGPA, instituto geográfico de pesquisas arqueologicas da universidade católica de Goiânia, estou escrevendo minha tese de mestrado que é na area de arqueologia pública. Já acabei de escrever meu primeiro livro de contos afro que espero conseguir públicação logo; isso associado a uma dose de nóstalgia, filha adolecênte, casa, e outras coisas mais me impediram de fazer com que meu blog cumprisse a proposta de troca de experiências e informação para qual ele foi criado...
Em suma me desculpo e agradeço pelas visitas postadas ou não.
Muito axé.
A todas as mulheres

Há tempos que a mulher deixou de ser vista como sexo frágil, pois a cada ano ele assume mais papeisna sociedade: o de chefe de familia sem dúvidas é o que exige mais dela. Pois, ao assumir esse papel, ela agrega a ele mais um personagem de sua diversas identidades: a de mãe, pai, empresária.
E com essa concepção o simples ato de paquerar vai sendo substituido, por relacionamentos rápidos, não por que o romântismo se perdeu da essência feminina mais pelo corre corre diário que a maioria delas vivência.
Neste sentido me pergunto as vezes onde foram parar as Amélias, não as submissas mais aquelas que ainda acreditavam em caras metades, e relacionamentos estáveis.Talvez tenham sido sucumbidas pela exigência do mercado de trabalho, que obriga as mulheres a se prepararem cada vez mais intelectualmente, o que, associado ao trabalho e filhos em alguns casos, deixa pouco tempo para o romântismo e as vaidades do dia a dia.
Então em mais um mês dedicado as mulheres o que dizer a elas talvez se encaixe aqui as palavras do sempre grande para mim Che Guevara, seguidas de pequena adaptação: "Há de se endurecer sempre mais sem perder a ternura” no nosso caso há de se preparar sempre mais sem perder a nossa essência enquanto mulheres e femininas, e por que não nos permitir ser cuidadas, ao inves de cuidar de tudo e todos...
Dia internacional da mulher
Neste dia, do ano de 1857, as operárias têxteis de uma fábrica de Nova Iorque entraram em greve, ocupando a fábrica, para reivindicarem a redução de um horário de mais de 16 horas por dia para 10 horas. Estas operárias que, nas suas 16 horas, recebiam menos de um terço do salário dos homens, foram fechadas na fábrica onde, entretanto, se declarara um incêndio, e cerca de 130 mulheres morreram queimadas. Em 1910, numa conferência internacional de mulheres realizada na Dinamarca, foi decidido, em homenagem àquelas mulheres, comemorar o 8 de Março como "Dia Internacional da Mulher". De então para cá o movimento a favor da emancipação da mulher tem tomado forma, tanto em Portugal como no resto do mundo.
O QUE SE PRETENDE COM A CELEBRAÇÃO DESTE DIA
Pretende-se chamar a atenção para o papel e a dignidade da mulher e levar a uma tomada de consciência do valor da pessoa, perceber o seu papel na sociedade, contestar e rever preconceitos e limitações que vêm sendo impostos à mulher.
MARCOS DE UM PERCURSO
Em Portugal
1822 - Primeira Constituição Liberal. Tanto esta Constituição como as seguintes afirmam. que a lei é igual para todos, sem referência especial às mulheres.
No mundo
1691 -Estados Unidos
As mulheres votam no Estado do Massachussetts. Perdem este direito em 1789.
1788 - França
Condorcet, filósofo e homem político francês, reclama para as mulheres o direito à educação, à participação na vida política e ao acesso ao emprego.
1792 - Reino Unido
Mary Wollstpnecraft pioneira da acção feminista, publica uma vindicta das Mulheres.
1840 - Estados Unidos
Lucrécia Mott lança as bases de Equal Rights Association pedindo a igualdade de direitos para as mulheres e para os negros.
1857 - Estados Unidos
No dia 8 de Março, em Nova Iorque, greve das opcrárias têxteis para obter a igualdade de salários e a redução das horas dc trabalho, para 10 horas por dia.
1859 - Rússia
Aparecimento de um movimento feminino em St. Pctersburgo para a emancipação da mulher.
1862 - Suécia
As mulheres votam nas eleições municipais.
1865 - Alemanha
Louise Otto funda a Associação Geral das Mulheres AIemãs.
1866 - Reino Unido
John Stuart MIII, filósofo e economista inglês, reclama o direito de voto para as mulheres.
1868 - Reino Unido
Criação da Sociedade Nacional para o Sufrágio Feminino.
1869 - Estados Unidos
Nascimento da Associação Nacional para o Sufrágio das Mulheres. O estado dc Wyoming concede o direito de voto às mulheres para atingir o número de eleitores necessário para entrar na União.
1870 - França e Suécia
As mulheres têm acesso aos estudos médicos. - Turquia
Inauguração de urna Escola Normal destinada a formar professoras para as escolas prirnárias e secundárias para raparigas.
1874 - Japão
Abertura da primeira Escola Normal para raparigas.
1878 - Rússia
Abertura da primeira Universidade feminina em St. Petersburgo.
1882 -. Estados Unidos
Susan B. Anthony funda o Conselho Nacional de Mulheres, tendo como patrono Victor Hugo; o célebre escritor era então um dos chefes do Partido Republicano.
1893 - Nova Zelândia
Concedido o direito de voto às mulheres.
1901.- França
O deputado socialista René Viviani, sustenta pela primeira vez um debate sobre o direito de voto das mulheres.
Se as coisas fossem mãe
Se a lua fosse mãe, seria mãe das estrelas.
O céu seria sua casa, casa das estrelas belas.
Se a sereia fosse mãe, seria mãe dos peixinhos.
O mar seria um jardim e os barcos seus carrinhos.
Se a casa fosse mãe, seria a mãe das janelas.
Conversaria com a lua sobre as crianças estrelas
Falaria de receitas, pastéis de vento, quindins.
Emprestaria a cozinha pra lua fazer pudins !!!!
Se a terra fosse mãe, seria a mãe das sementes.
Pois mãe é tudo que abraça, acha graça e ama a gente.
Se uma fada fosse mãe, seria a mãe da alegria.
Toda mãe é um pouco fada...
Nossa mãe fada seria.
Se a bruxa fosse mãe, seria uma mãe gozada;
Seria a mãe das vassouras, da família vassourada.
Se a chaleira fosse mãe, seria a mãe da água fervida,
Faria chá e remédio para as doenças da vida.
Se a mesa fosse mãe, as filhas, sendo cadeiras,
Sentariam comportadas, teriam boas maneiras.
Cada mãe é diferente. Mãe verdadeira ou postiça,
Mãe vovó ou mãe titia,
Toda Mãe é como eu disse!
Dona Mamãe ralha e beija, erra, acerta, arruma a mesa,
Cozinha, escreve, trabalha fora,
Ri, esquece, lembra e chora,
Traz remédio e sobremesa...
Assim é a minha mãe !!!
Zwelenu o dimi dyetu
Falai e lede, falai!
Kimbundu kia akulu-a-ndamba
O Kimbundu dos ancestrais
Anò a Ngola ku Luanda kuna
Filhos de Angola ali em Luanda
Kondekenu dimi dia oxi yíetu!
Honrai a língua da nossa terra
Dimi dyetu, kifa kyetu
Nossa língua, nossa cultura (costume)
Anga kifa kyetu, mwenyu wíetu
E nossa cultura,(é) nossa alma
Ki fwa o dimi, mwenyu u fwa we!
Morre a língua, a alma morre também!
Bwamoxi twondo banga ibaku ya mbote
Juntos faremos criares boas
Kwaku ni kwaku u sukula mukwa
Uma mão lava a outra
Mayadi, ma sukula mu polo!
As duas lavam a face
Ukwenze wa-la mu dimi dia manyíetu
O vigor (fortidío) esta na língua da nossa mãe
Mutu kene dimi, kene ukwenze
Pessoa sem língua, não tem vigor
Anga mutu kene ukwenze, kene mutu
E pessoa sem vigor, não é pessoa
Kiyama kia muxitu ngo!
Somente bicho do mato!
Dimi dyetu, kifa kyetu
Nossa língua, nossa cultura
Anga kifa kyetu, mwenyu wéetu
E nossa cultura, é nossa alma
Ki fwa o dimi, mwenyu u fwa we!
Morre a língua, a alma morre também
Zwelenu ni tangenu, zwelenueeh
Falai e lede, falaiiii!
Kimbundu kia akulu-a-ndamba
O Kimbundu dos ancestrais
Anaa Ngola ku Luanda kuna
Filhos de Angola alí em Luanda
Kondekenu dimi dia oxi yíetu!
Honrai a língua da nossa terra
Kiba-Mwenyu
segunda-feira, 4 de junho de 2007
Cultura afro-brasileira em sala de aula
Em si tratando de cultura africana que tem como base a oralidade, se pode afirmar que muito se perdeu durante sua diáspora em terras brasileiras, mais sua influência é visível em nossa formação etnica e cultural, isto é inegável. O que se precisa entender é que, para se aprofundar melhor, na cultura chamada afro-brasileira temos que buscar, nas suas, nossas raízes, o fio da memória africana com todos seus mistérios, encantos e desencantos; mais se a base desta cultura tão rica é a oralidade, como reescrever está história? Preenchendo as lacunas encontradas com muitas pesquisas e, neste sentido, os monumentos históricos e a mitologia africana são grande aliadas. Em suma todo este ensaio se fez nessesario para percebermos que cultura africana é a mesma na sua essência antí-colonizaçaõ, e a afro-brasileira e a que nasceu com a miscigenaçaõ que se deu em nosso país durante a colonização. E ambas fazem parte de nossa identidade.
Identidade, afinal: quem somos, onde estão nossas raízes brasileiras? Podemos afirmar com certeza que se encontram inicialmente em três continentes: o americano, na forma de nossos indios, no europeu na pessoa dos portugueses, e também espanhóis que por um tempo também se abrigaram e brigaram por nossas terras, e em nossa terra mãe, o continente africano, berço da humanidade e da cultura imaterial. Durante bastante tempo o Brasil viveu sob a condição de colônia europeia, e o resultado disto sem dúvidas é vizivel no nosso comportamento até os dias atuais; era papel da colônia reproduzir em todos os sentidos a cultura da sua metrópole, no nosso caso o Portugal. Nossa arquitetura seguia a influência de nossa colônia. A nós cabia o de suporte em todos os sentidos, e quando o Brasil se tornou “independente” se sentiu a necessidade de buscar algo que desse um cara própria ao novo país que acabava de nascer. Onde buscar subsídios para entender e escrever esta história? Neste momento começaram a dar a importância devida a nossos monumentos, que até eram vistos como frutos da vaidade de nossas governantes, ou registro de suas façanhas e poder.
O termo patrimônio nasceu durante este periodo onde a elite brasileira buscava pela sua própria história e nela uma das suas identidades, e na busca desta história os monumentos históricos assumiram o papel de um fio condutor até a memória, até desconhecida enquanto peça fundamental na busca constante de nossa própria história.
Em 1922 Mário de Andrade, após meses de viagem pelos sertões do Brasil, lança um termo até então desconhecido: o patrimônio cultural imaterial. Mário Andrade ressaltou a necessidade de observar as diversas faces culturais de cada região, levando em consideração que cada povo tem seu jeito de ser, de fazer e que é único, e que isto é que define sua existência enquanto ser individual e social. A semana de arte moderna foi o resultado destas descobertas onde os artistas expunham sua maneira de ser e fazer, não só seu fruto de trabalho. A partir desse momento começa a discussão da necessidade de se separar patrimônio material de imaterial, não que exista um sem o outro, mais a divisão era e é uma forma de preservar melhor nossas manifestações, nosso jeito de ser e fazer, e acima de tudo entender melhor nossas diversas idêntidades ainda ocultas.
Em si tratando de ocultismo, nossa raiz africana é a mais desconhecida, em todos os termos, pois ainda nós deparamos com conceitos coloniais do tipo pais da África, África de negros e pobres, estes são os preconceitos mais amênos, pois não mencionei a intolerância religiosa, o preconceito nos espaços escolares. Então nós resta uma pergunta: afinal o que sabemos da África? O temos ensinado a nossas crianças? Este é o tema de nossa abordagem neste ensaio, fruto de pesquisas e experiências em sala de aula no que se refere a este patrimônio imaterial desconhecido, chamado “Cultura afro-brasileira e africana em sala de aula, desafios e perspectivas”. Dando seguimento a esta discussão faço referência a um trecho tirado de um livro criado pelo ministério da cultura para homenagear grandes nomes e manifestações que expressam uma das nossas faces á afro-brasileira.
“...Os sambas, as rodas, os bumbas, os meus e os bois... Aspectos e gestos essênciais da nossa vida cotidiana que, junto com muitos outros, são agora objeto das politicas de preservação cultural. Com essa públicação o ministério da cultura e o IPHAN vêm informar sobre os fundamentos e instrumentos da política de salvaguarda da dimensão imaterial do patrimônio cultural brasileiro. Assim como prestar contas dos seus resultados e dos desafios que vêm enfrentando. Esses jongos, violas, círios e ofícios são bens vivos mantidos pelas pessoas que os praticam. Preserva-los é valorizar seu conhecimento e ação...”
Conhecimento, pertencimento: palavras que expressam a necessidade de desvendar-mos essa face ainda oculta de nossa identidades brasileira, a afro. Se o respeito, o cuidado para nosso patrimônio, seja ele material ou imaterial, nasce do conhecer, pois através deste conhecer nós sentimos inseridos á este patrimônio então citado, ou á esta história vivenciada que cabe a nós enquanto educadores, enquanto gestores patrimoniais e sobre tudo enquanto brasileiros, tomar posse desta parte de nossa história não é mais importante que nossas outras raizes, mais tão importante quanto elas.
Então mais uma vez nós deparamos com o foco principal de nossas discussões: a educação. Mais uma vez cabe as escolas o papel de desvendar e ministrar a nossas crianças e adolescentes uma nova maneira de pensar o continente africano, o de patrimônio imaterial, berço de nossas histórias, de nosso samba, do bumba meu boi, das cores fortes e vibrantes, da força e alegria de viver, da melanina em excesso de nossa pele, do nosso lado espiritualista. Em suma este ensaio poderia acabar aqui só inumerando o rico patrimônio que o legado africano nós deixou, seja ele em forma de monumentos, já que em cada um existem sangue, suor e lágrimas dos nossos escravos e sobre tudo na riqueza de nosso patrimônio imaterial, nosso folclore, nossos griós, nossos jongos; conhecer e tomar posse é nosso papel, o de cidadãos conscientes de sua história e da importância da mesma para nossa perpetuação.
Em suma podemos nós perguntar: como inserir em sala de aula algo que até hoje foi ministrado aleatoriamente sem nem uma preocupação de se avaliar os reflexos do mesmo em nossa sociedade, até então a história do negro em nosso contexto era vista pelos olhos do colonizador, as contribuições dos mesmos resumidas á mão de obra escravas e á alguns martires negros que lutaram, e morreram esquecidos, massacrados por ousarem ser eles mesmos. Então porque não começar por eles, mais não como martires, mais como seres humanos átivos, que lutaram por um mundo melhor e que graças a eles, me deram a possibilidade de escrever abertamente sobre um tema que até então era visto como um tabú, o de nossa face africana.
Ao invés de semanas de arte, período em que a cultura afro aparece em mais evidência, precisamos de disciplinas bem elaboradas que falem uma linguagem que as crianças entendam - aí entra o lúdico tão citado por Freire como ponte ao mundo infantil - , debates, pesquisas, oficinas para despertar o interesse de nossos adolescentes, e, acima de tudo, grupos de pesquisas e parcerias com educadores natos ativistas e africanistas que sirvam de suporte para nossos educadores. Só assim fortaleceremos nossa rede, e assumiremos nossa verdadeira face de brasileiros, meio europeus, meio africanos e meio amerindios, sem desmerecer a importância de cada um, cada qual no seu papel. E em suma poderemos tomar posse deste patrimônio imaterial que até hoje nós é negado por falta de conhecimento.
segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007
Umbanda e seus símbolos sagrados
Desde os primórdios dos tempos podemos observar a importância dos símbolos na existência do ser humano, símbolos estes que os remetem a uma lembrança, seja ela de felicidade ou não, estes símbolos funcionam como um elo entre o material e o sentimental ou espiritual em se tratando de religião.
Podemos destacar periodos importantes da história onde os simbolos tiveram um papel fundamental. Um deles foi a guerra santa onde cristãos tentavam convencer seguidores de Maome que Jesus estava na cruz, enquanto que os outros pregavam o alcorão e ambos estavam certos dentro de sua convicção, mais tanto um quanto o outro acreditavam que só a sua fé e que valia o que causou a morte de milhares de pessoas em nome de “Deus”, mais quem é Deus neste caso onde ele estava na cruz, no alcorão, nos dois ou em nenhun apartir do momento em que começaram a se matar. Espynai, 2001, “Deus é tão grande que é impossivel fecha-lo em único sistema... pois não é isto ou aquilo mais isto e aquilo...”.
Todo este ensaio foi feito para nos levar a refletir sobre a importância dos símbolos em nossas vidas, e os mesmos na vida do outro. Somos nós em que determinamos o que é importante em nossa vida, e cabe a nós perceber a importância de determinadas coisas na vida do outro com o qual convivemos. Em se tratando de religião então o cuidado tem que ser maior, na Umbanda não temos bíblia, é uma religião que se vive e dentro desta vivência temos nossos símbolos que chamamos de pontos de força. Sempre são elementos ligados á natureza, o fogo que é a vela firmada, a água quase sempre em vasilhas de argila, a terra, as pedras, a madeira, sempre elementos que unem o homem á natureza criando um elo entre Zambi que é como chamamos Deus e os homens nós.
A Umbanda é acima de tudo uma religião que se senti, depende de você essa percepção. Você é que vai determinar a extensão do que vai sentir. É como ver o mar pela primeira vez, se você deixar o som entrar nunca mais vai se afastar dele, e assim com toda religião espiritualista se você olhar com os olhos do coração vai perceber que sempre foi espiritualita, só não havia percebido.
A Senhora das Cabeças e a Rainha dos mares
Hoje é dois de fevereiro o que para algunas nações espiritualista é o dia dedicado a mãe das águas, neste dia as pessoas se dirijem ao mar para ofertar flores, perfumes, batons, tudo para agradar Iemanjá e conseguir sua proteção.
De acordo com os contos Iorubas: “o mar não tinha ondas e com a criação do homem, ele começou a sujar o mar, o que deixou Iemanjã furiosa. Ela foi até o Orúm, céu dos orixás, e pediu a Orumilá que tomasse uma providência ou ela invadiria a terra com suas águas e lavaria todo sujeira do homem, inclusive ele mesmo. Então Orumilá teve uma idéia, deu a Iemanjá o poder sobre as ondas que até então não existiam, através delas Iemanjá devolve ao homen toda sujeira que ele joga nas suas águas, e consta ainda que quando acontece aquelas mares altas onde o mar invade as cidades é ela que não aguenta mais vè o que o homen tem feito com suas águas...”
Este é um dos mitos da mãe das águas, senhora de nossas cabeças, dona dos mares, salve Iemanjá a rainha do mar, Odoiá, minha mãe.
Um olhar negro sobre Goiás: mitos e ritos afros sobre os becos de Vila Boa
Goiás se fez em evidência, aos olhos do Brasil não só pela riqueza de sua arquitetura colonial quase intocável desde seu nascimento no século dezessete, mais pela religiosidade de seu povo, a “maioria”, segundo a história oficial, descendente de paulistas como os bandeirantes que por sua vez descendentes diretos dos portugueses, católicos praticantes, o catolicismo está em evidência. Em todos os livros que recontam a história de Goiás poucos escritores resaltam a quantidade de negros que aqui viviam entre o século dezoito e dezenove, período em que Goiás conheceu seu apogeu e sua quase ruína, menos ainda se fala dos rituais que estes negros práticavam as vezes até com a presença dos seu senhores. O que eram exatamente as irmandades negras? Apenas um passaporte para a ascensão do negro na sociedade vilaboense, já que não podiam estar na mesma igreja dos brancos, ou uma forma sincrética de adorar seus orixás.
Cristina de Cassia Pereira (2000) escreve que a presença de elementos de origem indígena e africana nos rituais das irmandades de Minas Gerais e Goiás eram a prova do enraizamento dos sertanistas dos indios e dos africanos.
Sebastião Fleury Curado (1989) descreve um ritual que acontecia durante os festejos de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos na cidade de Goiás. Sem muita ênfase, segundo ele por falta de registros, sobre a chegada da rainha negra, ponto alto da festa do Rosária onde era escolhida uma negra para representação da rainha africana, existem registros de uma festa parecida em Angola, um país africano onde séculos atrás existia uma tribo liderada por uma rainha chamada Nzingua Mbandi. Esta tribo ficou conhecida segundo Nei Lopes (1988) por lutar sem trégua contra o colonialismo portuguès e por ter em seu cárteu variás amazonas negras, por muito tempo o reinado de Nzingua resistiu aos ataques portugueses e os venceu em variás batalhas.
Escritores antropòlogos como Roger Bastide, Cliffort, Nei Lopes e outros que escrevem sobre rituais africanos e a sua contribuição na invenção identitária do Brasil ressaltam semelhanças nós rituais praticados aqui no Brasil e em Goiás, agora segundo Fleury Curado (1989) ele descreve assim o ritual: “...com antecedência de semanas (...) se preparava a entrada da rainha (...) as mucamas preparavam muito tempo a “entrada da rainha” (...) festa profana e religiosa, que abalava a cidade inteira de Goiás (...)”.
Se eram tão importante, por que se perdeu logo depois do fim da escravidão se ali é que devia ser o seu auge? O autor Fleury ressalta que, apesar da importância desta festa para a cidade há poucos registros sobre seus cortejos, muitos já escreveram sobre as irmandades negras em Goiás e trabalharam suas ramificações com as irmandades de Minas Gerais, Rio de Janeiro e outras cidades, mais poucos partiram do pressuposto de que elas eram apenas o refúgio para os negros cultuarem seus orixás. E menos ainda sobre isto em Goiás, nossa Vila Boa ainda é conhecida pela suas celebrações cátolicas, suas procissões de adoração, nada se fala da tradição reinventada da Umbanda que agrega nos seus cultos as riquezas das irmandades negras nas suas orações, ora africana ora portuguesa, e em si tratando de Goiás, será que quando o autor chama a festa da rainha negra que acontecia nós festejos do Rosário de festa religiosa e profána ele estava se referindo apenas ao fato de haver durante o cortejo bebidas, ou ao detectar neste festejos vestigios africanos que aos olhos vilaboenses da época faziam parte de uma religião pagã, a africana. Muitos séculos se passaram desde que a festa de Nossa Senhora do Rosario não é mais a mesma, talvez agora aos olhos de muitos ela tenha se tornado apenas religiosa, talvez seja por isto que a festa do Rosário tal como era perdeu-se no tempo sem deixar vestígios.
A falta de mémorias negras em Goiás é uma lacuna que precisa ser preenchida e cabe a nós, futuros gestores do patrimônio, e vilaboense que sou, por isto guardiã destas memórias e reconstrutora desta história agora sobre uma nova óptica, a negra.
Em suma este texto e parte de minhas pesquisas que trabalham com memórias reconstruídas em Goiás sob os olhos da religião afro descendente, a Umbanda, o propósito é reescrever a história das irmandades negras em Goiás inserindo em seus rituais o nascimento dos cultos umbandisticos em Goiás, por isto na primeira parte resalta o surgimento da Umbanda no Brasil, seus cultos e sua matrix africana.
“...Eis as notas que constituem simples escôrço e que só podem interessar aos filhos da cidade de Goiás,(...) a festa do Rosário, tal como era feita, desapareceu. Assim, a irmandade do mesmo nome, composta de negros escravos...”, (Curado, Sebastião Fleury, Memórias Históricas, 2a edição, 1989).
terça-feira, 9 de janeiro de 2007
Entre a fé e a tradição: Festa de Reis do povoado de Água Limpa

Uma bandeira azul cor do céu, e no centro uma imagem de papel dos três Reis Magos por eles chamado de Santos Reis, gasto pelos anos e rica em tradição, imagem doada por um dos fundadores deste cortejo que há quase um século percorre os pequenos casebres de pau a pique que formam a comunidade rural de Agua Limpa, que fica a uns quarenta quilòmetros da cidade de Goiás, então patrimònio da humanidade.
Comunidade, esta, as vezes chamada de “Terra de preto” e as vezes “Remanescentes de quilombo”.
Remanescentes ou sobreviventes! Dizem os mais velhos desta comunidade que as primeiras terras ocupadas naquela região foram doadas em forma de seis marias a duas familia, os Corrêa da Silva e os Pinto Barroso, e que depois se juntaram aos de Deus. Muitas são as histórias contadas sobre os primeiros moradores da então chamada “água limpa”. Eles eram temidos pois conheciam a arte das magias, outros diziam que tinham conseguido suas terras matando seus senhores, pois eram ex escravos. No meu acadèmico ja existem teses em andamento que almejam provar que no território onde hoje é a comunidade existia no século dezoito um quilòmbo.
Na verdade a história da Água Limpa e a diáspora de seu povo esta bem expressa na manifestação da “folia de reis”, que é o periodo onde o velho e o novo se juntam, onde a fé e a tradição se misturam em uma festa que envolve católicismo popular, e muita devoção. Remanescentes, não! Sobreviventes de uma história marcada por perseguições e privações, onde o laço familiar e o coletivismo ainda são base social.
Algo de muito mágico envolve aquelas pessoas que por nove dias peregrinam de casa em casa rezando e louvando esta imagem presa a uma bandeira, que á todos naqueles dias é mais importante do que o próprio menino Jesus. Simplicidade e fé formam a base desta festa em louvor, onde pessoas semi–analfabetas entoam canticos em latim. Neste ano a festa foi na casa do seu Manoel e de dona Maria da Conceição, dois dos mais antigos moradores da fazenda. Eles nasceram lá, seus filhos e netos também, seus pais nasceram e morreram lá, quatro gerações de uma mesma familia unidas por uma fé ou uma tradição, não importa, todos os anos eles estão lá, rezando e agradecendo.
Esta é a fazenda Água Limpa ou a comunidade Água Limpa, não importa, remanescentes ou sobreviventes de quilombo o que importa é que a cada ano os Corrêa da Silva, os Serafim e os Pinto Barroso e muitas outras há variás gerações se juntam para celebrar a festa de Santos Reis e com ela relembram suas histórias de luta e sobrevivência.
A contadora de histórias
Um babalaò me contou que antigamente........
“...Laté ojó ilaí... Há muitos anos atrás, em tempos imemoriais, quando a terra se resumia em um único continente e todo coberto de água, pairava sobre ele o espirito da grande mãe Olodúmaré que, entediada com tudo que via, decidiu chamar seus sábios no intuito de descobrir uma maneira de dar vida á aquele espaço, que até o momento só abrigava seres maritímos. A reunião aconteceu no orúm onde viviam os grandes espiritos, todos compareceram, pois ninguém se recusaria a atender ao chamado da grande mãe.
A reunião se alargou por horas, dias, meses e não se chegava a um acordo. Iemanjá, filha primogenita e conselheira, dizia não querer mudança, já que era responsável pela limpeza das águas, mais sua mãe não queria o mesmo, ela queria vida e para isto precisavam de terra firme. Foi então que a grande mãe soprou em direção á água e as águas se juntaram deixando a mostra a terra do fundo. Ela mandou que cada sábio fizesse o mesmo, cada um em uma direção, e eles o fizeram e a terra apareceu, firme e acolhedora como a própria mãe ou o espirito dela e assim nasceram arvores e se criaram animais para usúfruir daquele espaço...”
Conto de criação do mundo segundo os Iórubas, povo africano que vivia e ainda vive em algunas partes da África central.
Iniciei este artigo com um resumo desta história porque é o que faço em um dos meus trabalhos: conto histórias que recolhi em meus sete anos de pesquisa sobre cultura africana. Eu adapto as histórias para que as crianças entendam e acima de tudo se divirtam, pois o aprendizado acontece neste momento.
A atividade de contar histórias nasceu no continente africano há muitos séculos atrás. Como se sabe, na tradição africana a oralidade é a base para eles o vivenciar, é a maior forma de aprendizado que os pais podem proporcionar aos filhos, então por séculos ao entardecer familias inteiras se reuniam para ouvir o que os mais velhos diziam. Ali se passavam horas onde os mais jovem se embebeciam da sabedoria de quem já havia vivido mais. Na África estas pessoas são chamadas de griós, pois além de contadores de histórias são conhecedores de mágias e plantas e animais, são sábios e muito respeitados.
Aqui no Brasil banalisam um pouco a palavra grió, quando dizem que griós são apenas contadores de histórias como eu, não querendo diminuir o que faço, pois se não acreditasse na importância disto para o crescimento das crianças não o faria. Mais o que digo é que o contar histórias é viver as mesmas e se divertir com elas, só assim se consegue passar a mensagem que a mesma traz para as crianças.