
Uma bandeira azul cor do céu, e no centro uma imagem de papel dos três Reis Magos por eles chamado de Santos Reis, gasto pelos anos e rica em tradição, imagem doada por um dos fundadores deste cortejo que há quase um século percorre os pequenos casebres de pau a pique que formam a comunidade rural de Agua Limpa, que fica a uns quarenta quilòmetros da cidade de Goiás, então patrimònio da humanidade.
Comunidade, esta, as vezes chamada de “Terra de preto” e as vezes “Remanescentes de quilombo”.
Remanescentes ou sobreviventes! Dizem os mais velhos desta comunidade que as primeiras terras ocupadas naquela região foram doadas em forma de seis marias a duas familia, os Corrêa da Silva e os Pinto Barroso, e que depois se juntaram aos de Deus. Muitas são as histórias contadas sobre os primeiros moradores da então chamada “água limpa”. Eles eram temidos pois conheciam a arte das magias, outros diziam que tinham conseguido suas terras matando seus senhores, pois eram ex escravos. No meu acadèmico ja existem teses em andamento que almejam provar que no território onde hoje é a comunidade existia no século dezoito um quilòmbo.
Na verdade a história da Água Limpa e a diáspora de seu povo esta bem expressa na manifestação da “folia de reis”, que é o periodo onde o velho e o novo se juntam, onde a fé e a tradição se misturam em uma festa que envolve católicismo popular, e muita devoção. Remanescentes, não! Sobreviventes de uma história marcada por perseguições e privações, onde o laço familiar e o coletivismo ainda são base social.
Algo de muito mágico envolve aquelas pessoas que por nove dias peregrinam de casa em casa rezando e louvando esta imagem presa a uma bandeira, que á todos naqueles dias é mais importante do que o próprio menino Jesus. Simplicidade e fé formam a base desta festa em louvor, onde pessoas semi–analfabetas entoam canticos em latim. Neste ano a festa foi na casa do seu Manoel e de dona Maria da Conceição, dois dos mais antigos moradores da fazenda. Eles nasceram lá, seus filhos e netos também, seus pais nasceram e morreram lá, quatro gerações de uma mesma familia unidas por uma fé ou uma tradição, não importa, todos os anos eles estão lá, rezando e agradecendo.
Esta é a fazenda Água Limpa ou a comunidade Água Limpa, não importa, remanescentes ou sobreviventes de quilombo o que importa é que a cada ano os Corrêa da Silva, os Serafim e os Pinto Barroso e muitas outras há variás gerações se juntam para celebrar a festa de Santos Reis e com ela relembram suas histórias de luta e sobrevivência.
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