terça-feira, 9 de janeiro de 2007

A contadora de histórias


Um babalaò me contou que antigamente........

“...Laté ojó ilaí... Há muitos anos atrás, em tempos imemoriais, quando a terra se resumia em um único continente e todo coberto de água, pairava sobre ele o espirito da grande mãe Olodúmaré que, entediada com tudo que via, decidiu chamar seus sábios no intuito de descobrir uma maneira de dar vida á aquele espaço, que até o momento só abrigava seres maritímos. A reunião aconteceu no orúm onde viviam os grandes espiritos, todos compareceram, pois ninguém se recusaria a atender ao chamado da grande mãe.
A reunião se alargou por horas, dias, meses e não se chegava a um acordo. Iemanjá, filha primogenita e conselheira, dizia não querer mudança, já que era responsável pela limpeza das águas, mais sua mãe não queria o mesmo, ela queria vida e para isto precisavam de terra firme. Foi então que a grande mãe soprou em direção á água e as águas se juntaram deixando a mostra a terra do fundo. Ela mandou que cada sábio fizesse o mesmo, cada um em uma direção, e eles o fizeram e a terra apareceu, firme e acolhedora como a própria mãe ou o espirito dela e assim nasceram arvores e se criaram animais para usúfruir daquele espaço...”
Conto de criação do mundo segundo os Iórubas, povo africano que vivia e ainda vive em algunas partes da África central.

Iniciei este artigo com um resumo desta história porque é o que faço em um dos meus trabalhos: conto histórias que recolhi em meus sete anos de pesquisa sobre cultura africana. Eu adapto as histórias para que as crianças entendam e acima de tudo se divirtam, pois o aprendizado acontece neste momento.
A atividade de contar histórias nasceu no continente africano há muitos séculos atrás. Como se sabe, na tradição africana a oralidade é a base para eles o vivenciar, é a maior forma de aprendizado que os pais podem proporcionar aos filhos, então por séculos ao entardecer familias inteiras se reuniam para ouvir o que os mais velhos diziam. Ali se passavam horas onde os mais jovem se embebeciam da sabedoria de quem já havia vivido mais. Na África estas pessoas são chamadas de griós, pois além de contadores de histórias são conhecedores de mágias e plantas e animais, são sábios e muito respeitados.

Aqui no Brasil banalisam um pouco a palavra grió, quando dizem que griós são apenas contadores de histórias como eu, não querendo diminuir o que faço, pois se não acreditasse na importância disto para o crescimento das crianças não o faria. Mais o que digo é que o contar histórias é viver as mesmas e se divertir com elas, só assim se consegue passar a mensagem que a mesma traz para as crianças.

Um comentário:

poesiamadura disse...

Olá...li uns textos seus e vi que costuma contar histórias...tenho um texto que escrevi sobre uma princesa negra, intitulado "O canto dos tambores ancestrais". Gostaria que você lesse e opinasse...de repente, você gosta e conta para suas crianças...Abraços, Heridan.